Olhar de Cinema: Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky (2017)

Vou ao cinema assistir ao novo filme da diretora Laís Bodanzky cheia de expectativas. Sim, é para tanto: a cineasta paulistana ganhou meu coração há alguns anos, principalmente com o combo dos premiados filmes “Bicho de Sete Cabeças” (2001) e “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), este último tendo sido assistido repetidas vezes pelos olhinhos de quem vos escreve.

Laís tem ganhado destaque no cinema nacional com um forte nome feminino no meio de tantos diretores homens que sempre costumaram tomar as rédeas das direções cinematográficas brasileiras. A arte imita a vida, e assim como Laís Bodanzky luta pelo seu espaço em um cinema majoritariamente masculino, Rosa (Maria Ribeiro), protagonista de seu novo filme, luta por um espaço onde possa respirar – entre as multitarefas de ser mãe, esposa, filha, trabalhadora e dona de casa – e ainda conseguir, no final do dia, sonhar.

“Como Nossos Pais” (2017) conta a história de Rosa, uma mulher, que como tantas milhares de outras mulheres, tenta ser perfeita nas várias funções em que está inserida no mundo atual: ser uma excelente profissional, uma mãe atenta e carinhosa, uma esposa presente e desejada, uma filha compreensiva e de quebra conseguir deixar a casa em ordem. Porém, nem tudo anda bem nessa vida corrida de mulher moderna. Rosa trabalha no que não gosta, nem sempre consegue acompanhar o ritmo de suas duas filhas pré-adolescentes, passa por uma crise em seu casamento com Dado (Paulinho Vilhena) e tem desentendimentos contínuos com sua mãe Clarice (Clarice Abujamra). Desta última ainda recebe uma revelação que pode mudar toda a sua própria história, o que a faz se questionar sobre si mesma e repensar os caminhos que seguiu até ali.

Assim como a música de Belchior, “Como Nossos Pais” emociona e encanta sem muita dramaticidade. Vai reto e profundo. Arrepia e ilumina o mais obscuro cantinho do coração. Seguindo a mesma estética e temática familiar de “As melhores Coisas do Mundo”, a diretora cria uma ambientação comum aos nossos olhos: famílias da classe média atual brasileira e seus desafios cotidianos. A naturalidade das cenas e das atuações ganham rapidamente a atenção do público, que entra no filme com facilidade pela linguagem
descomplicada e acessível. A mixagem de som também chama atenção e dá todo o clima do filme, trazendo emoções por si própria. A gente se desliga e se religa ao mundo junto à Rosa por causa desses sons.

No final, o que mais tem destaque é a simplicidade de um roteiro incrível. Apesar de cumprir a 1h42min informados, a minha sensação, no finalzinho, foi de ter assistido um média-metragem certeiro. É daqueles filmes que passam rápido por te fazerem sair da sala de cinema e adentrar por completo no papel fílmico da obra. Mas que te fazem, ao mesmo tempo, pensar e repensar a sua própria vida.

Em mim, “Como Nossos Pais” bateu fundo, invadiu lembranças e dores da minha própria existência como mulher, profissional e filha. Me deixei chorar sentada na cadeira do cinema por alguns minutos enquanto os créditos subiam e as pessoas saíam da sala em silêncio. Vale a pena o peso da leveza que ele traz no final.

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