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Sobre filmes que revemos incontáveis vezes

Recentemente, eu me deparei com um post no Instagram que apresentava uma sentença que o gênio do cinema Stanley Kubrick proferiu em uma entrevista e que me atingiu com todo furor: “A ideia de que um filme deve ser visto apenas uma vez é uma extensão de nosso conceito tradicional do filme como um entretenimento efêmero ao invés de uma obra de arte visual.”

Nunca imaginei que pudesse concordar mais com Kubrick. Eu sempre fui uma cinéfila de filmes repetidos. Muitas vezes exaustivamente repetidos. Desde criança, quando, aos finais de semana, ia com meu irmão e um dos meus pais à vídeo locadora, em meados dos anos 90, e passávamos horas escolhendo a dedo as fitas cassete que levaríamos para casa, eu acabava sempre recorrendo, no final das contas, a querer alugar os mesmos filmes que já tinha visto centenas de vezes antes: “Menino Maluquinho”, “A Pequena Espiã”, “Meu Primeiro Amor”, “Jumanji” (com sua capa saudosa em 3D), entre alguns outros.

Sempre fui motivo de zoação, por parte do meu irmão, por causa desse pequeno fato: o de sempre, e absolutamente sempre, querer assistir os mesmos filmes milhares de vezes. E tenho, até hoje, costume e prazer nessa atividade. Apesar de tentar assistir sempre aos filmes da nova safra, e de tentar me manter em dia com os clássicos do Cinema Mundial, não há como negar o desejo intrínseco que carrego de assistir a certos filmes (de novo e de novo) que amo.

Para mim há diversos motivos e explicações plausíveis para fazer isso. Quando um filme toca o seu coração, ele se torna único. Único porque conseguiu atingir partes suas que poucas coisas no mundo conseguiriam. Às vezes amamos um filme pelo seu roteiro, por sua trilha sonora ou por aquele ator que admiramos. Às vezes amamos um filme pelo clima dele, pela época, por uma frase. E, às vezes, amamos ele porque nos trouxe algo novo na nossa vida, nos marcou de algum jeito, ou simplesmente teve o poder de mudar nossas vidas completamente.

Um dos filmes que mais assisti na vida foi “10 Coisas que Odeio em Você”. Esse teen clássico da Sessão da Tarde me trouxe os primeiros contatos com o Feminismo através da personagem Kat. Até hoje o revejo com amor. Alguns desses filmes são novos, surgem na Indústria e conseguem captar ou dizer algo que precisávamos naquele momento. Um deles, para mim, foi “La La Land”. Não saberia contar nos dedos quantas foram as vezes que assisti esse musical romântico entre cobertores, num frio imenso, enquanto morava em Buenos Aires praticamente sozinha. De algum modo ele fazia eu me sentir confortável e quentinha. Antes, já havia passado pela fase “Amélie Poulain” e “Donnie Darko”, acredito que nem preciso expor quantas trilhões de vezes assisti a esses filmes.

Há aqueles que nos assustam com a possibilidade de revê-los e enxergá-los de forma diferente com o passar do tempo. Quem nunca reviu aquele filme preferido da infância depois de velho e percebeu o quão era mal feito ou o quão sua visão de mundo mudou desde a última vez que o assistiu? Eu já me assustei ao perceber, revendo certos filmes, o quão minha personalidade e gostos foram influenciados por filmes que vi na infância (mas isso é assunto para, quem sabe, outro artigo).

Cada vez mais a Indústria do Cinema, especialmente a Hollywoodiana, tem nos bombardeado com lançamentos e mais lançamentos (onde 95% deles são de super-heróis – dos quais eu curto, mas já tá bom né?), porém, em alguns dias, nós só queremos rever aquele mesmo filme, já sabendo de todo o roteiro e do seu final, porque queremos nos sentir seguros dentro dele, sem chances de desapontamentos.

A ideia de Kubrick dada em sua entrevista, para mim, soa muito mais que sóbria. Filmes são para morar n’a gente e não (pelo menos nem sempre) para nos distrair por duas horas e não deixar nenhum rastro dele nos nossos pensamentos. Assim como uma música que repetimos até decorar a letra de cabo a rabo, o Cinema deve ser visto e revisto e sentido como uma obra de arte.

 

Raiza Hanna