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Três anúncios para um crime: O clima é cru e intransigente. Selvagem.

Imaginem que por algum motivo todos os eleitores de Trump e Bolsonaro se mudaram para uma pequena cidade no interior do estado. Agora some a essa equação um delegado querido por todos, mas incompetente, e policiais preconceituosos e sem escrúpulos. Pronto. Três anúncios para um crime se passa dentro dessa realidade. De roteiro totalmente imprevisível, assim como os próprios personagens, o longa tem uma assinatura pautada na dinâmica “toma lá, dá cá”, a velha briga do gato e do rato. Mildred Hayes, personagem interpretado magistralmente por Frances McDormand, teve sua filha assassinada e seu corpo foi queimado enquanto era estuprada, sete meses depois, sem nenhuma novidade do paradeiro do culpado, ela resolve alugar por um ano três outdoors na rua do crime, para denunciar a ineficácia da policia local.

Força magnética

Três anúncios para um crime é uma manifestação cinematográfica dessas duas palavrinhas. Mildred é amarga e feroz, como uma mãe que luta por justiça. Há doçura dentro dela, mesmo que distante. Sem nunca ter tido a oportunidade de se despedir da sua filha, nutre culpa e mantém flores próximo aos outdoors, que é o que ela tem mais próximo de túmulo. É notável a oscilação entre dor, reação e alívio, mas levando em consideração a cidade em que vive, Mildred sabe bem que precisa usar sua indignação como combustível para continuar sua estratégia de chamar atenção para o crime, na ânsia de uma resolução.

Para completar essa crítica ao ímpeto natural do ser humano, aquele que nos aproxima do mais selvagem que somos, o diretor, Martin McDonagh (Sete Psicopatas e um Shih Tzu), que também assina o roteiro, acrescenta na subtrama dos personagens centrais um histórico de relações abusivas, como por exemplo, violência doméstica e o estranho relacionamento do policial Nixon (Sam Rockwell) com a sua mãe. Esse trio (Mildred, Nixon e a mãe) carrega o filme no colo. Eles trazem o ódio que vem nos assolar quando nos indignamos, e o resultado de uma criação irresponsável e abusiva. Diante do peso, o diretor acrescenta um reforço harmônico, o delegado Willoughby (Woody Harrelson), que tem como função principal, tecnicamente falando, apontar  o caminho da redenção para os outros envolvidos. Mas, na vida real, há alguém disposto a sacrificar-se para que os odiosos se reconectem com sua própria humanidade?

De forma sagaz, o diretor insere outros elementos no filme que afasta do espectador a ideia de que alguém precisou se sacrificar para que outros tenham sua oportunidade de redenção. Mas, sabendo que a função do papel do xerife no filme era apenas um recurso para os personagens principais, passamos a entender como só em filme as coisas caminham tão “coincidentemente”. Na vida real, meu amigo, ou você aprende a lidar com o seu ímpeto, ou você será eternamente uma megera ou um babaca.

Três anúncios para o crime é deveras perspicaz, penetrante. Traz planos abertos, mostrando bem o contexto que envolve os personagens e a trama central usa muitos tons fortes e vermelho na paleta de cores, metaforicamente indicando o estado de defesa e violência que aquelas pessoas vivem, mas  também implanta nas imensidões dos vermelhos, cenas que beiram a poesia. A cor é personagem presente no enredo, nos conta o estado de espírito das coisas, mesmo que de forma sutil. O que só traz mais grandiosidade para ele, que nos dá de presente a autonomia do pensar. Não obstante, a sagacidade do filme ainda se estende a relação das pessoas com a cidade, quanto mais inserida, mais reverberam violência e intromissão, quando passam a se afastar, entram nos momentos de reflexão, e, quem sabe, uma possível redenção. Qualquer semelhança com a realidade, principalmente virtual, pode não ser coincidência.

 

Publicado originalmente Cinerela!

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