Gabriel e a Montanha: o supertramp brasileiro

Alguns tipos específicos de filmes me fazem a cabeça, entre eles, filmes brasileiros, road movies e filmes sobre a África sempre roubaram grande parte da minha atenção. Em Gabriel e a Montanha levei um susto: havia um pouco desses três “gêneros” inseridos nele. O filme é uma produção nacional em parceria com a França, se passa na África e acompanha a viagem de Gabriel e seu fascínio pelas populações africanas.

Com uma pegada que lembra a de um documentário, o filme conta a história de Gabriel Buchmann (João Pedro Zappa), um economista, que estuda políticas públicas voltadas para populações pobres na África, e que depois de sonhar e planejar durante quase toda vida seu roteiro, começa sua viagem, onde passa um ano descobrindo as terras africanas, conhecendo e se hospedando em casa de nativos e percorrendo vários países com o mínimo de dinheiro no bolso para sobreviver, enquanto toma anotações de tudo em seu caderninho como um diário de bordo. Sem o perigo de soltar spoilers, Gabriel morre de hipotermia perto do fim de seu trajeto, cena mostrada já no início do filme.

Lembrou um tanto o filme americano “Na Natureza Selvagem”? Pois bem, a história de Gabriel, assim como a do “supertramp”, também é real. Gabriel Buchman realmente existiu, fez a viagem de seus sonhos, e morreu no final dela, quando decidiu, sem a presença de um guia, percorrer sozinho a trilha do Monte Mulanje, no Maláui. Gabriel desapareceu nesta trilha em 2009. Na época toda a imprensa divulgou a busca da família pelo seu corpo e logo em seguida foi aunciado que o economista tinha sido encontrado morto.

foto: o verdadeiro Gabriel/ Divulgação

O filme foi idealizado e dirigido por seu amigo de infância e também diretor de cinema Felipe Barbosa. Felipe, que é também diretor do longa “Casa Grande”, decidiu filmar a trágica história de seu amigo usando como referência o caderno de anotações de Gabriel, informações de sua família, da sua namorada (que também aparece no filme e é vivida pela atriz Caroline Abras) e das pessoas que toparam com Gabriel em sua jornada. Essas últimas acabaram virando atores no filme, fazendo o papel de si mesmas.

Felipe Barbosa construiu um filme em cima de pessoas, paisagens e fatos concretos. Ele, junto de sua equipe de filmagem e atores, percorreram os exatos locais onde Gabriel passou pela África para as filmagens, entrevistaram várias pessoas que cruzaram o caminho do protagonista e incluíram seus depoimentos e suas atuações não-profissionais na obra.

Gabriel e a Montanha é uma obra linda de se ver. O estilo quase documental toma conta da ficção, e as atuações, tanto dos atores profissionais como dos não-atores, toma forma de maneira naturalizada, nos levando a diálogos possíveis no nosso cotidiano. A gente se sente seguindo um Gabriel comum, sem estereótipos ou idealizações, com todos os defeitos inerentes ao ser humano. A imagem do protagonista não é passada como a de um herói, diferente de como sentimos no supertramp de “Na Natureza Selvagem”. É melhor: mais real e humano.

A fotografia é belíssima e nos deixa com gostinho de quero mais África nos meus olhos assim como nos de Gabriel. A direção e o roteiro também ganham destaque por serem extremamente detalhados e bem montados. Gabriel e a Montanha nos mostra que um filme feito de coração, atinge em cheio, milhares de outros.